sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Por enquanto, as empresas observam

Desde queo início da Cop 15, na segunda-feira, dia 7, estou tentando entender que a empresas estão fazendo aqui e se estão de fato participando dos eventos para influenciar a negociações de alguma maneira. Qual o papel do setor privado em um evento com o esse? Ele não deveria ser irrelevante. Afinal, uma vez que um acordo for firmado – se firmado – e metas definidas – quaisquer que elas sejam, caberá, sobretudo às empresas, a missão de cumpri-las.


Tive contatos com alguns executivos brasileiros (de empresas como Braskem, Cetrel, Vale, CPFL, Santander, Fiat, entre outras) que estão aqui e a minha percepção foi a de que eles estão simplesmente observando com curiosidade e estranhamento o caos organizado que é o Bella Center, onde o evento está sendo realizado, com as inúmeras manifestações barulhentas das ONGs e suas dezenas de eventos paralelos. E isso faz sentido. Até Copenhague, o setor privado simplesmente não tinha qualquer interesse pelas reuniões climáticas da ONU. Elas eram palcos apenas para os membros dos governos, acadêmicos e especialistas no aquecimento global, ongueiros.

A certeza de que a minha percepção a respeito das empresas aqui estava certa se concretizou há pouco, quando participei de um debate cujos palestrantes eram todos membros de instituições internacionais ligadas ao setor privado. O objetivo era discutir soluções de negócios para a mudança climática e de que maneira investimentos podem ser feitos de maneira rápida e eficiente. Segundo projeções divulgadas pela Agência Internacional de Energia (IEA), o mundo precisará, no período de 2010 a 2020, de 200 bilhões de dólares ao ano em investimentos no setor de energia. Só com esse volume de recursos atenderemos às reduções de emissões esperadas e o aumento de, no máximo, 2º até o final desse século. O número calculado pela consultoria McKinsey, que inclui investimentos em setores que não só o de energia, é menor, de 100 bilhões de dólares a ano.

Independentemente das diferenças, trata-se de muito dinheiro, e a perspectiva é a de que metade – nos dois casos – venha do setor privado. “Para que isso aconteça, porém, é preciso criar mecanismos e regras para que as empresas queiram e se sintam seguras para gastar esse dinheiro”, disse a EXAME o inglês Henry Derwent CB, presidente da Associação Internacional de Comércio de Emissões, que tem sede na Suíça. No mesmo encontro, Lisa Jacobson, presidente do Conselho Empresarial para a Energia Sustentável, com sede em Washington, nos Estados Unidos, disse que a participação do setor privado nos processos de negociação da Cop 15 está aquém do que poderia ser. “Não temos um papel pró-ativo no processo, e deveríamos ter, porque muito em breve, se um acordo for firmado, teremos de seguir as regulamentações que dele virão”.

Charles Purshouse, da Camco, uma empresa inglesa que atua com projetos no mercado de carbono, defendeu a manutenção do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), uma das peças-chaves do Protocolo de Kyoto e que permite às empresas de países pobres e emergentes criar projetos para vender créditos de carbono para companhias de países ricos que precisam compensar suas emissões. Um exemplo: uma fabricante de cimento européia pode compensar suas emissões comprando créditos de carbono de uma siderúrgica brasileira que trocou seus fornos movidos a carvão mineral, altamente emissor, por carvão vegetal, menos emissor. No passado visto como uma solução para o aquecimento global e como uma forma inteligente de fazer com que os países pobres adotassem tecnologias mais limpas, o MDL caiu em descrédito nos últimos anos.

A razão é que o processo para certificar os projetos das empresas aptos a vender créditos, feito pela ONU, é visto pelo setor privado como extremamente moroso e burocrático, e pode demorar até dois anos e meio para ficar pronto. Por isso, há até mesmo especialistas que defendem a sua extinção. “Não acho, porém, que faria sentido acabar com algo que já existe para criar do zero uma outra alternativa para movimentar o mercado de carbono”, diz Purshouse. “A melhor maneira seria aprimorar o modelo que já existe, corrigir os defeitos”. Luiz Alberto Figueiredo, embaixador do Brasil e responsável pelas negociações aqui em Copenhague, afirmou que a melhoria do MDL vem sendo debatido desde o início da conferência, dentro das negociação do texto do Protocolo de Kyoto. No ano passado, o mercado de carbono movimentou 6,5 bilhões de dólares.

Fonte: Portal Exame

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