terça-feira, 18 de maio de 2010

Ricardo Belotti fala sobre governança corporativa

Caio Lauer
Você já ouviu falar em governança corporativa? Tecnicamente, a governança define-se pelo conjunto de processos, costumes, políticas, leis, regulamentos e instituições que moderam a maneira como uma empresa é dirigida, administrada ou controlada.

Uma organização com boa governança é melhor compreendida pelos fornecedores, ganha crédito junto aos clientes, conquista a confiança dos bancos e acionistas externos. Existe uma série de vantagens e consequências positivas para a empresa como um todo, até do ponto de vista da imprensa e do branding da companhia no mercado. Uma corporação com boas práticas de governança corporativa se diferencia das demais, pois cria uma vantagem competitiva.

Para falar sobre governança e as práticas do mercado nesse segmento, conversamos com Ricardo Belotti, administrador de empresas e fundador da Ricardo Belotti Consultoria Empresarial, que além de outros serviços para as organizações, atua com consultoria na área de governança corporativa para companhias de todo o país. Ele também conta sobre sua trajetória profissional e sobre sua passagem em instituições de grande importância no Brasil.

Boa leitura!

Ricardo, conte-nos um pouco sobre sua formação, com o que pretendia trabalhar no começo da carreira e como ela se desenvolveu?

Me formei na Fundação Getúlio Vargas, nos anos 70, em São Paulo, na escola de Administração de Empresas com especialização em Finanças. Comecei a trabalhar no mercado de capitais, no setor de ações, como analista no Banco Itaú. Nessa época, já começa a haver a participação dos fundos de investimentos em ações no capital das companhias e participação nas assembléias e na vida das SAs (Sociedades Anônimas). Não era tão ativa quanto é hoje, mas já existia essa atividade dos bancos participando na vida das corporações, que é o fundamento da Governança Corporativa.

Depois do Banco Itaú, trabalhei no BNDESpar, que era um fundo de “Private Equity”, (tipo de atividade financeira realizada por instituições que investem essencialmente em empresas que ainda não são listadas na bolsa de valores) gerenciado pelo BNDES. Era um fundo gigantesco, o maior dessa natureza no Brasil e naquela época era feita a compra da participação em companhias brasileiras e ajudávamos essas organizações em seu crescimento. Mais na frente, o BNDESpar vendia essas participações em bolsas de valores. Foi um movimento importante para sair da relação de banco emprestando dinheiro para a empresa e mudar essa troca como banco sendo sócio da corporação. Esse foi o início da parceria público-privada que hoje está tão na moda.

Em 1979, fiz meu mestrado no INSEAD, na França. Voltei da Europa e fui trabalhar na maior “Private Equity” privado brasileiro, que era o grupo Monteiro Aranha, com participações acionárias relevantes. Na época, eles tinham 20% da Volkswagen no Brasil, depois compraram alguns bancos e fui trabalhar com o grupo em um projeto internacional na área de energia.

Essa atividade no exterior na área de energias, era uma tentativa, naquela época, de se fazer produção de Etanol no Brasil em larga escala. Era um projeto com uma estatal francesa, a Petrobras, o grupo Monteiro Aranha e um grupo privado sucroalcooleiro que não existe mais, com atuação no Rio de Janeiro e em Pernambuco.

Esse estudo de viabilidade e a montagem da empresa, com tantas pessoas, grupos e interesses, foi a primeira grande experiência de colocar em ação as melhores práticas de governança corporativa. Foi quando o grupo Monteiro Aranha tinha muitas participações acionárias e experiência associativa. O grupo era o facilitador de todo esse processo e conduzi essas atividades.

Após esse período, evoluí no Monteiro Aranha e fui participar em uma investida, por meio de uma sociedade com um grupo americano, Combustion Engineering, e montamos no Brasil uma empresa para produção de equipamentos para petróleo. A convivência com os americanos foi feita por meio de um acordo de acionistas, costurada com base em visões modernas de governança corporativa.

Saí da vida corporativa de grandes companhias e fui viver governança corporativa em organizações com gestão familiar. Assumi a presidência da corporação de minha família, onde atuei, de 1985 até 1990. Em empresa familiar, tive uma experiência bastante rica do que é praticar governança corporativa.

Em 1990, voltei para a vida corporativa de grandes negócios internacionais e fiquei sócio da Brasilpar Serviços Financeiros, que é gestora de “Private Equity” e “Eventual Capital” e éramos o maior fundo de capital estrangeiro existente no Brasil. Essa foi uma experiência bastante rica de governança, pois estávamos administrando oito bancos estrangeiros.

E quando resolveu montar seu negócio próprio?

Em 1997 montei a Ricardo Belotti Consultoria Empresarial. Na consultoria, estruturei os produtos e serviços, com base nas atividades que vinha desenvolvendo como gestor de fundo de “Private Equity”. Hoje nós trabalhamos com fusões e aquisições e governança corporativa – estruturamos regimentos internos e conselhos de administração em empresas médias e familiares, ou nas que existem vários sócios. Outros produtos oferecido são a implementação de processos de métricas e inteligência de negócios, onde fazemos o planejamento estratégico e estabelecemos como essa empresa pretende aferir seus resultados, além de verificarmos se a estratégia está andando conforme o planejado.

Como age um conselho de administração?

Na governança corporativa precisamos entender a estrutura de poder na organização, e partindo desse princípio e do momento estratégico que a corporação passa – pode estar em um momento de profissionalização, de sucessão, de disputa entre sócios, entre outros -, aparece a necessidade de um consultor, mediador e especialista, de fora da empresa, para ajudar na construção do que se denomina governança corporativa.

Os clientes me procuram para construção de regimento interno, organização dos processos de decisão, definição dos quóruns para as reuniões se instalarem e dos critérios de decisão. Enfim, é uma série de regras de convivência para as decisões atuais, bem como a previsão, no caso de saída de sócios ou falecimento do mesmo, por exemplo, de como agir, que leis internas estipular para esses tipos de eventualidades e como as regras devem funcionar para situações específicas.

O conselheiro de administração tem papel fundamental na atuação da governança corporativa em uma organização. Qual a função desse profissional?

O conselheiro é o elemento moderador e oxigenador dos conselhos da empresa, justamente por ser externo e desvinculado à corporação, e de certa forma independente para ajudar o grupo na construção do processo de decisão das ações corporativas que devem ser tomadas.

Existem os intitulados conselheiros profissionais que participam dos conselhos de várias empresas e emprestam suas experiências para essas companhias. São profissionais que após certa vivência no mercado, em vários conselhos de diferentes organizações, tornam-se conselheiros consultores.

O papel do conselheiro está sendo mais valorizado?

O espaço para conselheiros profissionais, hoje, é muito maior no que no passado. Antes, a lei obrigava as empresas a ter um conselho de administração e os conselheiros eram os amigos dos donos da companhia, com uma atuação quase que honorífica. Então, esses profissionais não tinham um papel atuante de gestão ou de governança corporativa que vemos atualmente. Nos dias de hoje, o conselheiro é responsável pelos atos da coporação, sofre consequências por atos de gestão e isso é cada vez mais presente. Existem inúmeros processos e investigações em cima de conselhos de administração.

Aumentou o mercado para os conselheiros, mas também cresceu a responsabilidade para esses profissionais e o comprometimento com práticas aceitáveis e corretas de governança corporativa.

Qual o grau de importância desse sistema (governança) para o processo de sucessão e profissionalização das empresas?

Normalmente, quando o empresário cria a empresa, ele tem três elementos que estão presentes: a propriedade, a gestão e poder da companhia e a família. Em um processo de sucessão, por exemplo, na aplicação da governança corporativa, separamos esses três fatores. É necessário fazer com que o empresário compreenda que os três elementos são bem distintos e que essa divisão é importante porque a organização é muito mais do que uma propriedade de um investimento para o fundador da corporação.

O processo de sucessão passa pela criação de um conselho consultivo e de administração. Esse conselho instrui esse empresário a mostrar para os vários públicos que ele pretende estruturar essa sucessão de forma coletiva, por um grupo de pessoas que terão a responsabilidade de perenizar todos os envolvimentos da empresa: os empregos dos colaboradores, a continuidade de produtos e serviços, a tecnologia, os compromissos com bancos e fornecedores, entre outras relações. É uma série de responsabilidades, que por meio da criação de um conselho administrativo, passará a informação para o mercado que essa sucessão será, de certa forma, controlada.

A globalização ocorrida no fim do século passado afetou as práticas da Governança Corporativa?

Hoje em dia, muitas empresas brasileiras vão para o exterior captar recursos. As companhias captam esses recursos lá fora porque percebem que têm um modelo de gestão adequado para que os investidores internacionais se interessem. Por exemplo, um banco brasileiro que vende títulos e bônus no exterior, só o faz para mostrar que essa instituição tem um processo de gestão decisório que garante aos investidores um mínimo de segurança na gestão e na seriedade que aquele dinheiro será gerido. Não necessariamente é uma garantia que o negócio da empresa é bom, mas é uma segurança de que a organização é séria.

Os bancos Itaú e o Bradesco só conseguem a atuação global que possuem nos dias de hoje por causa de regras claras e explícitas de governança corporativa. Hoje, não há como ir para o mercado exterior e ser uma corporação respeitada se não tiver práticas de governança corporativa aceitas internacionalmente.

Nos dias 18 e 19 de junho você presidirá a mesa do Fórum promovido pela Catho Educação Executiva com o tema “Governança Corporativa”. O que os participantes podem esperar?

O Fórum funcionará como um “menu degustação” do tema e tocará em vários aspectos e situações, onde as empresas precisam de governança e como ela se processa. Não será uma conferência acadêmica, e sim uma apresentação muito prática do assunto.

Serão também apresentadas situações específicas de governança. Mostraremos casos de oarganizações sem controle definido, exemplos de fusões e aquisições e de companhias com três sócios – pois tem que haver uma regra de convivência para isso. Abordaremos também o caso de uma empresa familiar que possui um sócio externo, o que é bem comum nos dias de hoje.

Fonte: Carreira e Sucesso

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