sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Trabalhadores temporários trabalham até 15 horas às vésperas do Natal

RIO - O Natal de 2010 promete ser um dos melhores em vendas dos últimos anos. Recorde turbinado pela alta no emprego e na renda. Esta também é a época em que milhares de pessoas se lançam no comércio como temporárias em busca de dinheiro extra ou, quem sabe, de uma vaga fixa. São cerca de 130 mil trabalhadores temporários esperados só nos shoppings, segundo estimativa da Associação dos lojistas de shoppings (Alshop), sendo que 75 mil são em geral preenchidas por pessoas com idade entre 18 e 40 anos.

Como ganham por comissão, muitos aceitam ficar sem folgas. A estudante Juliana Brasil trabalhará pelo segundo Natal consecutivo. Ela sonha juntar dinheiro para viajar no próximo carnaval e gostou da agitação da Taco, mesmo que tivesse que recorrer a bebidas energéticas para aguentar o ritmo.

-Acaba sendo um desgaste físico muito grande, mas dei sorte, o gerente era muito bom, recebia a gente com cafés da manhã e fazia um monte de dinâmicas - conta.

Já a veterana em trabalho no Natal, a estudante de informática, Andrea Pires, 35 anos, disse que desistiu do comércio há alguns anos.

- Na primeira semana de dezembro o horário é cumprido direitinho, na segunda eles dizem que fica a cargo de você. Depois, não tem mais folga - afirma Andrea.

Ela conta que muitas vezes precisou recorrer a vitaminas para agüentar a rotina que chegava a 15 horas diárias às vésperas do Natal. -Venda é comissão, quanto mais atender melhor.

Direitos iguais

Muitos concordam ou desconhecem seus direitos e acabam trabalhando totalmente na informalidade. Os trabalhadores temporários têm os mesmos direitos que os trabalhadores efetivos de uma empresa, como registro em carteira de trabalho como temporário, jornada máxima de oito horas diárias, 13º salário, férias proporcionais e vale-transporte .

O presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, Ricardo Patah, estima que nas lojas de todo o Brasil existam hoje 60 mil trabalhadores informais que ainda desconheçam completamente seus direitos. A vendedora Andressa de Oliveira Melo, 20 anos, temporária por vários anos, não sabia que tinha os mesmos direitos de um trabalhador com carteira.

- Nunca soube. Não tinha carteira assinada e ganhava só por comissão, mas não queria ficar efetiva mesmo- afirmou.

No último Natal, a Delegacia do Ministério Público do Trabalho no Rio encontrou 1.371 pessoas trabalhando no comércio do Estado do Rio sem nenhum tipo de contrato de trabalho. Desses, 742 tiveram a situação regularizada depois de as empresas serem advertidas.

Em média, o salário do trabalhador do comércio previsto ficou em R$ 725,02, a maior dos últimos oito anos, segundo a Fecomércio-RJ.

Para o vendedor Eduardo Ribeiro Sodré, de 56 anos, sendo 28 no comércio, dezembro é mês de trabalho duro, ou melhor, incessante. Ele conta que já chegou a trabalhar 31 dias seguidos em uma loja de calçados no centro do Rio, ignorando qualquer tipo de folga, para aumentar a renda. Considera o trabalho pesado, mas "natural".

- No comércio no fim de ano, a intenção é aumentar as vendas. Se você não trabalhar, não ganha - diz ele, reconhecendo um certo estresse e dores na perna. Ele diz que consegue alcançar R$ 2.400 de salário acrescido da comissão de 4% nas vendas.

Para Márcia Pinto da Silva, 42 anos, o trabalho como caixa em uma loja na rua da Alfândega também pesa sobre os estudos. Ela se divide entre o trabalho e a conclusão do último ano do ensino médio, em escola pública. Desde 2003, conseguiu ser efetivada, mas diz que a vida continua dura.

- Aqui é o dia inteiro em pé, ninguém pode sentar. Quando estou no colégio, às vezes até durmo na cadeira - conta.

Patah afirma que as dificuldades para os comerciários já foram maiores no passado. Ele conta que na época em que os shoppings ficavam abertos também durante a madrugada, os abusos eram maiores. Segundo ele, o nível de escolaridade dos comerciários aumentou e com isso fica mais fácil saber sobre direitos.

- Comércio e serviços representam cerca de 60% do PIB, mas isso não se reflete ainda para os trabalhadores - afirma Patah.

Fonte: O Globo

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