sábado, 18 de junho de 2011

Bertin encolhe para crescer

Grupo vende ativos para acertar pendências na área de infraestrutura. Com isso, tenta recuperar o tempo perdido na disputa para se tornar um competidor importante no setor energético Por Rosenildo Gomes Ferreira

O clã Bertin, formado por dez irmãos e liderado por Fernando Bertin, construiu um império no agronegócio a partir de um pequeno frigorífico aberto em 1979 em Lins, cidade do interior de São Paulo. Quase três décadas depois, a família decidiu repetir a dose no segmento de infraestrutura. Desde então, o grupo empreendeu uma corrida desenfreada nos setores elétrico e rodoviário. Venceu leilões para a construção de 42 usinas pelo Brasil afora, capazes de gerar 6,7 gigawatts de energia, quase metade da potência instalada de Itaipu, o que exigiria um desembolso de R$ 10 bilhões. No setor rodoviário, sua maior tacada foi a aquisição do direito de explorar o pedágio nos trechos Sul e Leste do Rodoanel de São Paulo.

Aposta bilionária: com usinas como a Sacre II, a Bertin espera chegar em 2013 com receita líquida de R$ 5,3 bilhões

A aposta, ao que parece, era alta demais para o cacife do clã. Nos últimos 12 meses o grupo passou por inúmeros reveses. Para evitar o risco de perder as concessões e pagar pesadas multas pelos sucessivos atrasos no cronograma de construção das termelétricas, o Bertin optou pela venda de ativos. No final de maio, a divisão de higiene e limpeza (que inclui as marcas Francis, Ox e Neutrox) foi entregue à sócia JBS, da qual os Bertin são sócios, por R$ 350 milhões.

Os recursos foram usados para quitar pendências com a Centrais Elétricas de São Francisco (Chesf), referente a dívidas relacionadas às usinas termelétricas de Borborema (PB) e Maracanaú (CE). Isso, no entanto, não foi o bastante para equacionar os problemas de caixa. Na terça-feira 14, foi a vez de passar adiante a licença de construção de duas termelétricas a gás no Espírito Santo. A transação, feita com a MPX, do empresário Eike Batista, injetou outros R$ 330 milhões nos cofres do Bertin, de acordo com estimativas do mercado.

Correção de rota: Fernando Bertin lidera o clã e comandou a reestruturação do grupo

O grupo refuta a tese de fragilidade financeira. 'Não é correto dizer que faltou dinheiro para tocar os projetos', disse em entrevista exclusiva à DINHEIRO Evandro Miessi Mente, presidente da Bertin Energia. Engenheiro de formação, Mente ingressou no grupo em 1989 e, desde o final de abril, comanda essa divisão. 'Prova disso é que os acionistas já colocaram cerca de R$ 1 bilhão, do próprio bolso, para viabilizar os empreendimentos.' Não é o que pensam os analistas. 'Os Bertin ouviram o canto da sereia e se comprometeram a investir um montante que não dispunham', afirma o consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Na avaliação de Pires, as incertezas que rondam o setor elétrico causadas, em boa medida, pela Bertin, se devem a uma postura frouxa do governo. No afã de evitar o risco de um novo apagão, o governo permitiu o ingresso nos leilões de empresas sem experiência prévia na área, além de não ter exigido garantias financeiras mais consistentes. 'A expectativa é de que isso seja corrigido nos próximos leilões', diz Pires.

Para tocar seus projetos na área energética, o clã Bertin sempre levou em conta um bom número de variáveis que nunca estiveram sob seu controle. A engenharia financeira para erguer seu império dependeria de quase 80% de recursos oriundos de terceiros: bancos, fornecedores e fundos de investimento. Pior. A guinada para o setor de infraestrutura se deu em meio à crise financeira global, ocorrida em setembro de 2008. 'As fontes de financiamento secaram e tivemos dificuldade para captar os recursos necessários', afirma Mente.

Para piorar, alguns fornecedores de turbinas ficaram sobrecarregados de encomendas em função do trabalho de reconstrução do Japão, devastado por um terremoto ocorrido no início de março. Isso para João Carlos Mello, presidente da consultoria Andrade & Canellas, não exime o Bertin de culpa. 'Eles demoraram demais para fazer as correções de rota', afirma Melo.

A saída do projeto Belo Monte, no qual detinha 9% de participação, e a venda de licença para duas térmicas a gás representaram uma bela redução nos planos da Bertin Energia. Levando-se em conta as concessões obtidas desde 2008, a empresa seria responsável por empreendimentos orçados em R$ 10 bilhões. O que restou no portfólio ainda é expressivo e, segundo Mente, deverá exigir investimento de R$ 6 bilhões.

Desse total, R$ 1,5 bilhão será aportado pela família, enquanto os R$ 4,5 bilhões restantes deverão ser obtidos por meio de financiamentos. Como a família alega já ter colocado R$ 1 bilhão no negócio, restariam apenas R$ 500 milhões pelas contas do executivo. Os recursos deverão ser levantados, em parte, com a receita gerada pelos empreendimentos já em operação. A lista inclui seis Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e quatro térmicas.

Sob nova direção: Mente foi escalado pela família Bertin para tocar a divisão de energia

No total, a expectativa é fechar o ano com faturamento líquido de R$ 790 milhões, atingindo R$ 1,8 bilhão em 2012 e R$ 5,3 bilhões em 2013. Até lá, a geração de energia deverá saltar dos atuais 766 megawatts para 6 gigawatts. Ao quitar as pendências junto à Chesf, a Bertin Energia escapou de ter seu nome incluído no cadastro de inadimplentes, o que fecharia as portas para financiamentos do BNDES, por exemplo. Ao desistir das térmicas a gás no Espírito Santo, ela evitou comprar uma briga com a Petrobras, que rompeu unilateralmente o contrato de fornecimento e poderia entrar na Justiça em busca de compensações por atraso.

Isso não quer dizer, contudo, que o cenário diante do Bertin é róseo. Existem dificuldades para colocar projetos importantes, com o de Aratu (BA) e o de Suape (PE). A venda de ativos garantiu um bom fôlego ao grupo, é certo. Contudo, à exceção das licenças de construção das usinas e da participação na JBS, não restou muita coisa no portfólio. Agora, o grupo teria de mostrar que pode caminhar com as próprias pernas em um segmento novo no qual erros costumam custar muito caro. 'Estamos nos concentrando em setores altamente regulados, cujo risco é extremamente baixo quando comparado ao do setor de proteína animal', afirma Mente. 'Ao contrário da cotação da carne, que sobe e desce conforme o humor do mercado, o setor elétrico garante margens pré-definidas de rentabilidade.'

Fonte: Isto É Dinheiro

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