segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Frio polar no calor carioca

Profissionais que trabalham em ambientes refrigerados fazem inveja no Rio


Rio - Dezembro no Rio de Janeiro, temperatura de 15 graus Celsius negativos. Parece ficção científica, mas é a mais pura realidade para Eleonardo Baptista do Amaral, de 25 anos. No bairro de Fátima, Centro, ele veste o casaco feito para suportar até 20 graus negativos e entra na câmara frigorífica da fábrica de sorvetes onde trabalha para buscar os potes de uma das sobremesas mais procuradas no calor carioca. Nessa época do ano, com os termômetros da cidade que não dão refresco, ultrapassando 40 graus nos dias mais quentes, profissões como a do sorveteiro fazem o carioca suar de inveja.

Profissionais chegam a suportar temperaturas de até 20 graus negativos em frigoríficos
Foto: Carlos Wrede / Agência O Dia

O dono da sorveteria MelliMello, Antônio Sérgio de Almarez Dagola, conta que as vendas chegam a crescer 70% durante o calor.

“Aumenta bastante a procura mesmo. O sorvete vira sonho de consumo”, diz Antônio, que entrou no negócio em 1975, inicialmente vendendo máquinas de fazer sorvete para marcas famosas como Itália, Alex e Sem Nome.

“Eu vendia as máquinas e ensinava a fazer. Comecei a ver que todos se davam bem com o negócio aqui no Rio e resolvi abrir minha loja”. Eleonardo, que entra na câmara umas dez vezes por dia, se delicia com o ar refrigerado no calor da cidade: “Dá vontade de ficar direto lá dentro”.

Na Penha, sem ar-condicionado em casa, Renato José da Silva trabalha há quatro anos como empilhador no frigorífico do supermercado Prezunic e passa oito horas do dia em temperaturas que podem chegar a 28 graus negativos.

“Eu sinto bastante a diferença nessa época do ano”, conta.

Os 81 funcionários, que circulam em 18 câmaras frigoríficas, usam casacos, botas, luvas, calças e gorros especiais. “Tomo vitamina C todos os dias”, conta Renato.

O gerente do frigorífico, Roberto Bonomo, explica que há médicos que acompanham todo o trabalho para garantir a segurança e a saúde dos funcionários. “Nós temos atendimento médico e, a qualquer alteração que apresentem, são encaminhados para receber o tratamento necessário”, garante Bonomo.

Emerson da Silva, 23 anos, contou que escuta muitas brincadeiras dos amigos e da família. “Eles têm inveja. Enquanto a maioria trabalha enfrentando o calor, eu fico aqui nesse frio. Só podia ser um pouco menos, né?”, brinca o funcionário.

O médico Pablo Queimadelos, diretor do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), explica que essas pessoas precisam ter cuidado redobrado com a saúde. “A imunidade fica mais baixa e eles ficam mais sujeitos a viroses e a alergias”, explica.

Sem equipamento adequado, o risco de contrair uma pneumonia, por exemplo, é grande. “Apesar de desconfortável, aquela roupa toda é muito necessária para manter a segurança do funcionário. O ideal, também, é manter uma alimentação saudável”, ensina.

Segundo o cardiologista Evandro Tinoco, diretor clínico do Hospital Pró-cardíaco, o coração é o que mais preocupa.

“Dependendo do tempo que uma pessoa fica exposta a esse frio, sem os cuidados necessários, pode sofrer uma hipotermia (diminuição excessiva da temperatura do corpo). As baixas temperaturas interferem no aparelho cardiovascular e aumentam a pressão arterial”, avisa o médico.

Com os cuidados necessários, no entanto, sombra e ar fresco são tudo o que os cariocas querem nessa primavera com temperaturas de verão. Invejada pelos amigos, a instrutora de patinação no gelo, na pista do Shopping Grande Rio, em São João de Meriti, Jessica Laine, 18 anos, não chega a enfrentar temperaturas abaixo de zero, mas desfruta de um clima bem agradável.

“Fico aqui das 11h às 22h e trabalho sem reclamar. Mesmo fazendo exercício, o clima é superfresco. Tenho um trabalho privilegiado”, conta Jéssica.

A pista recebe cerca de 50 pessoas por dia desde outubro e deve funcionar até fevereiro, quando a temperatura começa a amenizar na cidade.

O professor de natação e hidroginástica da Companhia Aquática de Natação, no Engenho de Dentro, Rogério Borges Pimentel, tem seis anos de profissão e se sente um sortudo por trabalhar na piscina nesse calor.

"Não fico o tempo todo dentro da piscina, só em aulas com crianças e idosos. De qualquer forma, trabalho com roupas leves”, explica Rogério, que tem pena dos amigos que precisam vestir terno e gravata no dia a dia.“Mesmo que fiquem no ar-condicionado, até chegar ao trabalho já está todo mundo suado”.

Primavera com temperatura de verão

Ainda na primavera, o mês de novembro bateu recorde de calor no Rio: foi o mais quente dos últimos cinco anos. Segundo o instituto de meteorologia Climatempo, nos dias 5, 7 e 22 os cariocas enfrentaram o maior calor do ano, com a temperatura chegando a 40,2 graus. A média de novembro do ano passado foi de 30,9 graus, e esse ano ficou em 35,2: 4,3 graus mais alta. Entre outras causas cogitadas para as altas temperaturas, está o fenômeno El Niño, aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico.

O calor mais forte do que o esperado pegou cariocas e até a Light de surpresa, segundo a própria concessionária admitiu à Agência Nacional de Energia Elétrica. A população correu às lojas de ar-condicionado e ventilador, que faturaram alto e chegaram a esgotar estoques. Mas o alto consumo de energia estaria na causa de problemas de luz que atingem o Rio desde outubro.

A Light intensificou o seu Plano Verão, colocando 1.900 profissionais nas ruas, 30 % a mais que o efetivo normal,destacados para manutenção e emergência. Apesar do calor forte na primavera, a previsão para o verão, que começa dia 21, é de temperatura média de 32,7 graus.

‘Escritório’ cobiçado à beira-mar

O trabalho no Posto 5 de Copacabana faz muito executivo de terno e gravata, a caminho do escritório, olhar com inveja para o guarda-vidas Christiano Costa Reis, 21 anos. Trabalhar só de sunga e regata, num calor de 40 graus não tem preço. E cuidar da segurança do banhista, tarefa que vem em primeiro lugar, observa, não impede o profissional de dar seus mergulhos.

Christiano lembra que os frequentes banhos de mar não são a única vantagem de quem trabalha na praia e depende de um bom preparo físico. Solteiro, ele reconhece que chama a atenção das mulheres.

"Recebo muitas cantadas. Tenho colegas que conheceram as namoradas ou até esposas na praia. De alguns salvamentos, também surgem romances. Elas são salvas e acabam ganhando um anjo da guarda”, brinca. Mas ser salva-vidas não é só curtir a praia, claro. É preciso estar a postos ao primeiro raio de sol e só deixar o ‘escritório’ com ele.

Reportagem de Ana Luiza Guimarães

Fonte: O Dia On Line

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente livremente, mas sem abusar do critério da livre escolha de palavras. Assuntos pessoais poderão ser excluídos. Mantenha-se analítico e detenha-se ao aspecto profissional do assunto em pauta.